domingo, 2 de maio de 2010

O SAPO TAMBÉM HABITA NUM VERSO DE POEMA

Encarados por nós de múltiplas formas, os anfíbios estão presentes em diversas facetas da actividade humana, entre as quais a literatura. Também habitam em versos de poema.

Na solidão do espaço, enxames de galáxias expandem-se e brilham. Na agitação da Terra, o Reino Animal, a mais bela e valiosa de todas as colecções, exibe-se. A reflexão concentra-se numa estrela e num animal: o Sol e o Sapo. O papel do Sol na vida da Terra justifica o chamamento mas, entre milhões de espécies vivas, como se justifica a escolha do Sapo para herói desta “aventura”?

As explicações são sempre incompletas:

A luz do Sol evoca-se na sua qualidade de fenómeno metafísico. Sempre com o Sapo no horizonte, deseja-se que derrame “lucidez” em todos os que, com vozes desafinadas maculam a imagem do delicado anfíbio que, como qualquer ser vivo, está permanentemente ocupado na resolução dos problemas básicos da vida, na selecção de melhores estratégias de sobrevivência. Procurar alimento em quantidade suficiente para a produção de energia, escolher o par para o acasalamento assegurando que a vida continua e defender-se de ameaças à integridade física, é o alto preço que o Sapo paga para viver. Da amiba ao ser humano, a procura do bem-estar ocupa todos os seres e, por isso, respeitar a vida, amá-la como coisa sagrada, produto de milhões de anos de evolução, é cada vez mais urgente.



A luz como metáfora surge das aspirações de racionalidade no convívio entre todos os seres. Os dois casos que se seguem, seleccionados ao acaso entre incontáveis, ilustram dois modos de proceder. No primeiro, um compositor e uma aranha são protagonistas. Claude Lévi-Strauss no livro OLHAR OUVIR LER refere curioso episódio. Informa que Chabanon, violinista, compositor e filósofo interessava-se por aranhas e tocava-lhes árias de violino para saber a que tipo de música se mostravam sensíveis. O segundo caso resume-se a uma informação sobre o Sapo, disponível numa enciclopédia. Quem procurar essa informação, deseja-se que não seja uma criança, lê: Género de batráquios anuros insectívoros, de aspecto repelente (…) Prestam grandes serviços destruindo insectos e milhares de pequenos animais nocivos, motivo por que não se lhes deve fazer mal, apesar do seu aspecto repelente. Naturalmente a mesma enciclopédia explica o significado de “repelente”: Que inspira nojo, aversão, odioso, repugnante. No grande concerto da sinfonia cósmica, não contribuirá o Sapo para a Beleza do conjunto?

É óbvio que nada do que respeita à Beleza é óbvio. Da Grécia Antiga ao século XXI a ideia de Beleza nunca foi algo de imutável, nem de absoluto. Modelos de Beleza variaram consoante um período histórico e uma região e, por vezes, até numa mesma época. Hesíodo narra que, nas bodas de Cadmo e Harmonia, as musas cantaram em honra dos esposos os versos que se seguem: Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido. David Hume nos ENSAIOS MORAIS, POLÍTICOS E LITERÁRIOS revela a sua opinião sobre tão delicado tema: A Beleza não é uma qualidade das coisas em si mesmas: só existe na mente que as contempla e cada mente percebe uma Beleza diferente (…) cada um deveria satisfazer-se com o seu sentimento sem pretender regular o dos outros. Voltaire, no DICIONÁRIO FILOSÓFICO escreve: Perguntai a um sapo o que é a Beleza o verdadeiro belo o to kalon. Responder-vos-á que consiste na sua mulher com seus belos olhos redondos que se projectam para fora da pequena cabeça, o pescoço grosso e achatado, o ventre verde e as costas castanhas.



Presentemente não existe um ideal único de Beleza. Um investigador do futuro não poderá identificar o ideal estético a partir do século XX. A HISTÓRIA DA BELEZA dirigida por Umberto Eco termina com uma afirmação que espelha a realidade actual: O tal investigador deverá render-se perante a orgia da tolerância, diante do sincretismo total, do absoluto e imparável politeísmo da Beleza. Não será o templo da Beleza o justo coração do Homem?


A poesia é mais que uma meditação delicada e a ciência não é a única via que orienta o modo de conviver com o mundo natural. Poesia e Ciência nasceram do mito porém, a Ciência não sabe lidar com o “sagrado”. Se os conhecimentos científicos existentes sobre o Sapo são insubstituíveis, a literatura que o menciona pode dar um bom contributo para o modo de pensá-lo e aceitá-lo, o que é importante para a sua conservação. Virgínia Woolf, Teixeira de Pascoaes, Rui Belo e Breton são escritores, entre muitos outros, que incluíram o curioso anfíbio na obra que escreveram. Ou buscando a luz do Sol, ou saboreando uma chuvada, ora saltando, ora cantando, ou ainda envolvido nos trabalhos da conservação da sua espécie na Terra, cada autor, lembra que há um animal chamado Sapo, que anda pelos campos, assoberbado, empenhado na difícil tarefa de viver. Eis como ele entra na literatura:

Virgínia Woolf, escreveu aquele que talvez seja o seu melhor romance, AS ONDAS. Marguerite Yourcenar, sua tradutora francesa, classifica-o de “narrativa musical”e, compara os monólogos interiores à Arte da Fuga de Bach. Ora, curiosamente, o Sapo ocupa no romance, um singelo espaço, embora não seja como cantor. A romancista inglesa atenta aos sons, a certa altura escreve: Ouve! É o salto de um enorme sapo na vegetação rasteira; algumas dezenas de páginas passam, e o simpático animal volta à cena: semelhante a um sapo no seu buraco, acolho os acontecimentos com perfeita frieza.



Teixeira de Pascoaes, é um observador atento da Natureza. Certa noite, entre os gemidos do vento e tristes pensamentos, o canto de um Sapo fez a diferença: Nos pinheirais o vento geme e chora / E os sapos cantam / E ouço a noite a chorar no meu jardim.

Rui Belo, melancolicamente, inventa caminhos no labirinto do tempo. No poema INVOCAÇÃO entre solidão, sombras e gente que não sente qualquer necessidade de saber, há a esperança de que perto ande pelo ar o perfume da flor do castanheiro e há também um alegre Sapo. Nunca aspirei a mais do que ao repouso / nas regiões onde em fins de Janeiro /já o inverno lentamente se despede / e o sapo satisfeito pela chuva /oculta a cabeleira de uma nuvem

André Breton, revolve a substância poética. Na poesia surrealista, fluxo de um pensamento que gera lances imprevistos, poderá o absurdo tornar-se racional? Por que não há-de a linguagem perseguir algo, mesmo que acabe por cair no vazio? No poema FATA MORGANA o Sapo de Breton desempenha estranha missão: Uf o lagarto passou sem me ver / (…) E o ovo religioso do galo / Continua a ser religiosamente chocado pelo sapo / Da velha varanda segura apenas por um fio d´hera /Acontece o olhar errante sobre as adormecidas águas




David Attenborough, no livro A VIDA NA TERRA lembra: Há cerca de 350 milhões de anos, num pântano de água doce, teve lugar um episódio que iria ser decisivo na história da vida: alguns “peixes”começaram a arrastar-se para fora da água e tornaram-se assim os primeiros vertebrados a colonizar a Terra (…) esses peixes tiveram de resolver dois problemas: como locomover-se fora de água e como obter oxigénio do ar.


Ora a pouco quilómetros do Oceano, onde há 200 milhões de anos passeavam dinossáurios, hoje vivem vários sapos. Em manhãs de Primavera, nunca uma visita ao lugar, deixou frustrado o desejo de encontrar um ou mais. O campo é fértil, levemente ondulado e atravessado por pequeno riacho. Como seria há duzentos milhões de anos!?

Os cheiros a erva fresca e a folha que apodrece misturavam-se. Numa qualquer manhã de Abril, a surpresa de descobrir um exemplar tardava. Entretanto o espectáculo da banalidade de situações centenas de vezes observadas, não se perdia: a neblina matinal dissipava-se, um gaio localizava o alimento que guardara no Outono, aves poisavam e o descair da asa com o fim do voo era gracioso, uma águia cortava o espaço aéreo. Vista, ouvido e olfacto registavam um caudal de impressões quando, já um pouco tardiamente, a persistência foi premiada. Perto do riacho um sapo tomava a sua refeição matinal. Os binóculos permitiam observar o banquete sem o perturbar: caçara uma minhoca e segurava uma das extremidades com a boca e cuidadosamente raspava-lhe o corpo com as patas dianteiras removendo a terra que se agarrava ao corpo da vítima. Quando tudo estava a seu contento a refeição consumou-se e, curiosamente, ao engolir piscava os olhos, fenómeno que certamente ajudava o processo.

Esta foi a mais interessante visita realizada àquele lugar onde há 200 milhões de anos passeavam dinossáurios e hoje, uma pacata e activa população de sapos habita.

domingo, 14 de março de 2010

UM MODO DE DISCORRER SOBRE O ESPÍRITO DE SINTRA


Para sentir o espírito de um lugar ou reflectir sobre ele, não há como conhecer-lhe a história, isto é, saber como o local foi outrora. Incorpóreo mas real, simultaneamente inconfundível e vago, o espírito de cada lugar resultará de uma complexa teia que o Tempo, a Terra e o Homem, engenhosamente vêm tecendo.

O Tempo, labirinto de sentidos, é enigmático para o filósofo, aquilo que sabemos quando ninguém no-lo pergunta mas não sabemos quando o pretendemos explicar (1), simplificado por Fernando Pessoa, O presente é todo o passado e todo o futuro, simbiótico no 1º acto do Parsifal, Vê meu filho, aqui o espaço e o tempo se confundem, premonitório para Jesus de Nazaré, não conheceis os sinais dos tempos?

A Terra é a morada comum.

O Homem, é o ser da constante dedicação à busca do alimento, da sexualidade e do trabalho mas, se movido por irresistível vontade de indagar, descobre um universo de raros fenómenos, para lá do metabolismo e da reprodução. Vive então a aventura de contemplar, de pensar, de criar.

O Tempo, a Terra e o Homem serão os criadores do espírito de um lugar.

Pascal considera o género humano um mesmo homem que subsiste e aprende continuamente, qual processo interminável e laborioso que aplicado a Sintra foi gerador das preciosidades que herdámos e conservamos. São, entre outras, relíquias arqueológicas, monumentos, pinturas e literatura que o local inspirou. Alimentam o espírito do lugar, único nas singularidades que acumula, igual a todos na fragilidade que o marca. Século após século, o Homem domina-o, e dominando, mantém-lhe a essência ou adultera-a.




Durante séculos, em Sintra, a Natureza desempenhou o papel de protagonista. De que modo? Que peso teve nos empreendimentos realizados? Como a apresentam os textos antigos?

Quem deambular pela Serra encontrará conventos nos lugares mais escondidos da floresta. Os muros de ameias do antiquíssimo Castelo dos Mouros, sobranceiro à Vila, ajustam-se aos cumes dos montes e estendem-se por eles. Palácios, quintas solarengas e vivendas apalaçadas, erguem-se entre luxuriante vegetação. Casas rústicas e aldeias saloias, espalharam-se pelas várzeas férteis e de abundantes águas. Tudo fazia parte integrante da paisagem, através de um apropriado enquadramento no ambiente natural. Em Sintra o património natural e o património cultural, formaram uma unidade.

Se mesmo hoje não é fácil evocar Sintra sem lhe associar a Natureza, no passado essa particularidade assumiu formas caprichosas. Textos antiquíssimos, outros mais recentes, esboçam imagens de Sintra no pretérito. Alguns deixam adivinhar vivências, sentimentos e preferências. O texto que se segue do século X, do geógrafo árabe Al-Bacr, tem o seu valor acrescido pela escassez de referências anteriores à Nacionalidade. O autor que aprecia a fecundidade da terra e do mar e a salubridade do ar, informa: (Sintra) ... é uma das vilas que dependem de Lisboa no Andaluz, nas proximidades do mar. Está permanentemente mergulhada em bruma que se não dissipa. O seu clima é são e os habitantes duram longo tempo. Tem dois castelos de extrema solidez. A vila está a cerca de uma milha do mar (...) A região de Sintra é uma das regiões onde as maçãs são mais abundantes. Esses frutos atingem uma tal espessura que alguns chegam a ter quatro palmos de circunferência. Acontece o mesmo com as pêras. Na Serra de Sintra crescem violetas selvagens. Da costa vizinha extrai-se âmbar excelente.

Cada vez que se trata de pensar Sintra em épocas remotas, há um trecho que é citação certa. Trata-se da carta atribuída a Osberno, cruzado inglês que em 1147 participou na operação de conquista da cidade de Lisboa aos mouros. Testemunha ocular dos factos que descreve, o cruzado junta ainda outras informações. É aí que Sintra aparece e, curiosamente, entre o real e o mito

Fica-lhe próximo (de Lisboa) o castelo de Sintra,(...) no qual há uma fonte puríssima, cujas águas, a quem as bebe, dizem, abrandam a tosse e a tísica; por isso quando os naturais dali ouvem tossir alguém logo depreendem que é um estranho(...). Nos seus pastos as éguas reproduzem-se com admirável fecundidade por quanto só com aspirar as auras concebem do vento , e depois, sequiosas, têm coito com os cavalos. Desta forma se casam com o sopro das auras.

O cronista Damião de Góis também é citação indispensável. Nele, e noutras fontes, avaliamos como em Sintra a Natureza condicionou o evoluir histórico. Lugar de bosques, brumas e silêncios, espaço predilecto de caçadas, atraiu reis e, com eles, uma multidão. Procuravam sossego, diversão e as belezas do lugar. Longe do bulício de Lisboa, recuperavam energias e viviam a situação de apaziguamento, que a Natureza proporciona.

(D. Manuel vem) a Symtra ter o Verãm, por ser hú dos lugares da Europa mais frescos, & alegre para qualquer Rei, Principe & senhor poder nelle passar tal têpo,... hà nella muita caça de veado, & outras alimárias, & sobre tudo muitas...boas frutas (...) & as milhores fontes dagoa (...) às quaes cousas todas acrescenta(...) hos magnificos paços, que no mesmo lugar hos reis tem, para seu aposento,& dos que cõelles vam.(2)
No último quartel do século XVIII e em inícios do século XIX Sintra desempenhou um papel importantíssimo, desta vez na produção artística. Uma pleíade de artistas, encantou-se com as belezas da região, narrou-as, comentou-as e descreveu as emoções que acompanharam a contemplação dos lugares. Muitos, confessaram-se incapazes de descrever todos os encantos que presenciavam. Byron é um exemplo: Eis Sintra e o seu Éden resplandecente surgindo num labirinto multicolor de montes e vales. Ai de mim, que não sei pintar nem descrever metade sequer das maravilhas em que os meus olhos se deleitam. Nasceu assim, uma vasta e preciosa obra, que veio enriquecer, o espírito de Sintra.



É neste espaço que hoje vivemos. Aqui fazemos e desfazemos, limpamos e poluímos, aplacamos e avivamos, pranteamos e festejamos. O que ficar desta aventura merecerá os aplausos e as censuras dos vindouros. Eles julgarão o nosso tempo, tal como hoje avaliamos o passado e é importante que assim se faça, para que o fluir dos homens e das ideias, se molde à magia deste lugar e lhe respeite a essência.

Como muito bem disse o poeta o presente é todo o passado e todo o futuro. Em Sintra o passado infiltra-se no quotidiano de cada um. No mínimo, vive-se à sombra do castelo e na vizinhança dos monumentos. O presente também é futuro; há a nobre missão de acautelar e aumentar a herança que recebemos. De que modo? Vítor Serrão está cheio de sabedoria quando apresenta o seu ponto de vista : torna-se imperioso que o crescimento rime com qualidade, que novas construções rimem com interesse arquitectónico, que futuros arranjos rimem com enquadramento cenográfico.

Há lugares que têm espírito e Sintra é um deles.

(1) WITTGENSTEIN (1967). Philosophische Untersuchungen. Frankfurt A. M., p. 61

(2) VITOR SERRÃO (1989). Sintra. Editorial Presença, Lisboa, p.96

domingo, 28 de fevereiro de 2010

OLHOS DE POETA


Escreve-se sobre a relação da sociedade humana com a NATUREZA, num ritmo proporcional ao desencanto sempre crescente, provocado pela degradação do ambiente. Mas esse “desencanto” obriga a esforços concertados e à descoberta de novos possíveis.

Edgar Morin afirma que quando olhamos o estado do planeta “verificamos perigos mortais para o conjunto da humanidade (armas nucleares, ameaças à biosfera) e ao mesmo tempo probabilidades de salvar a humanidade do perigo a partir da própria consciência do perigo”.

Residirá nesta convergência de destinos a responsabilidade telúrica do HOMEM ?

Trata-se de construir uma consciência ambiental mais sentida, concreta e inovadora e, se muito já foi pensado, ainda não se deu o devido relevo ao valor de mensagens provenientes de certos universos, humanismo, estética e religião, entre outros.

A poesia, neste contexto ocupa um lugar privilegiado. Baudelaire gostaria de ter convencido os seus contemporâneos que a poesia é tão importante como o pão. Não indo tão longe, é lícito, porém, colocar a questão: se a sociedade humana achasse a NATUREZA com OLHOS DE POETA, a convivência entre essa e outra não seria mais sadia?


Blocos habitacionais, fios eléctricos, canos, esgotos, lixos, transformam a paisagem e tornaram-na muito estranha. Longe vai o tempo em que o sagrado se colava à NATUREZA, que “saída da mão dos deuses” impressionava pelo aspecto, variedade dos fenómenos e incapacidade de os entender. Se porém os comportamentos assumidos pelos homens das sociedades primitivas e arcaicas desapareceram com a História, hoje, ainda encontramos nos poetas antigos valores, reminiscências de experiências passadas.

Fernando Pessoa é um exemplo bem significativo.

Amar, ver, ouvir, comover, são palavras que o seu heterónimo Alberto Caeiro dispõe para exprimir a intimidade existente entre ele e o mundo natural.

Aprecie-se:

Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem
Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza


Mas saberá o poeta porque ama a NATUREZA?

Escreveu ele:

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama nem o que é amar
Amar é a eterna inocência


Se Fernando Pessoa não sabe porque ama a NATUREZA o leitor pode descobrir:

Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado

……………………………
No meu prato que mistura de Natureza
As minhas irmãs as plantas
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza

……………………………
“…oiço passar o vento
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido



O poeta, que se considera “um animal que a Natureza produziu”, caracteriza o amor que dedica ao universo natural. Afirma ele:

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor


Nos poetas encontramos memória de práticas passadas, exaltação de antigos valores e quem olhar a NATUREZA com OLHOS DE POETA encanta-se e protege-a.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

NA TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL UMA MEDITAÇÃO SOBRE A BELEZA


O Futuro é um constante desafio. Que faremos do TEMPO que se desdobra à nossa frente?

Exploradores em território adverso (mundo tolo, sórdido, malvado, enfatuado, mundo de angústias) são os talentos de cada um que determinam a acção.

Se a “verdadeira” BELEZA anima a vida, se a “verdadeira” BELEZA reduz a dor, é preciso ir até onde ELA se encontra. Nos incontáveis e sumptuosos espectáculos que a Natureza proporciona, no mágico universo da Arte, na sublime prática do Amor está a BELEZA. Jamais será esquecida a fealdade exterior do grande filósofo Sócrates, que resplandecia de BELEZA interior, jamais será apagada a máxima do Oráculo de Delfos: o mais justo é o mais belo.

A BELEZA, a Virtude, proporcionam momentos de imensa Paz. Não será isto a felicidade?

Perdemos a juventude, mas não perdemos a esperança.

O odor das flores sente-se nas trevas.

[A imagem que ilustra este texto é uma reprodução do quadro "O Salto do Coelho" de Amadeo de Souza Cardoso]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

De quantas maneiras é possível Caminhar?




Diz-se que a arte torna o mundo visível. Se à percepção humana da Natureza e do mundo que nos rodeia juntarmos uma componente estética e artística, não ganharemos logo com isso? De quantas maneiras é possível caminhar num pátio? E na vida?

O Homem poderá ser o filho mais complexo e melhor sucedido da Natureza, mas não possui o dom de viver em harmonia com ela. Para prová-lo, basta ler a imprensa diária ou ouvir os noticiários.

De um lugar mais ou menos distante, parte a notícia de uma ocorrência que acaba de lesar um espaço físico e, consequentemente, os que o habitam. O acontecimento é recebido com muita apreensão noutros pontos do planeta, mas a vida continua sem alterações. Certo dia, de um desses lugares que recebeu a notícia, parte outra semelhante à primeira, igualmente alarmante. Continua a ser recebida com apreensão, mas nada se altera. Um dia, mais uma calamidade ......
Não haverá um modo de interromper esta marcha determinada e trágica? Que falta ao Homem para o conseguir?

Almada Negreiros conta, que certo dia, entrou numa livraria com o propósito de comprar um livro que o orientasse na aventura de viver. Rodeado de milhares, naturalmente, sentiu dificuldade na escolha. Não duro para ler metade da livraria, pensou. Finalmente decidiu-se e comprou um livro de Filosofia porque, afirma: eu necessitava pôr ciência na minha vida... e a Filosofia é a ciência da vida.

Não interessa agora averiguar, se do conjunto dos livros de Filosofia existentes na livraria, ele soube escolher o que de facto lhe convinha. A finalidade da evocação deste episódio é chegar a esta conclusão: Ao Homem falta-lhe conviver com a sabedoria acumulada ao longo de milénios de pensamento.



O Homem, a sabedoria e o mundo, intersectam-se no pensamento de Rudolf Arnheim, num lugar especial: a obra de arte. Arnheim, um respeitado professor de Psicologia da Arte e autor de uma obra diversificada e muito apreciada, afirma: A Arte torna o mundo visível, não há sabedoria humana que possa ir mais além.

Que sabedoria é essa que transmite a obra de arte? Como é possível descobri-la num quadro, poema, ou noutro veículo artístico? E que fazer com ela?
Quando Monet escutava os conselhos de Boudin, fazia-o com todo o respeito e atenção. Dizia-lhe Boudin: estude, aprenda a ver e a pintar, desenhe, faça paisagens. É tão belo o mar e o céu, os animais, as pessoas e as árvores, tais como a Natureza as fez, com o seu carácter, a sua maneira de ser, ao ar e à luz tais como são.

Boudin, utiliza palavras e expressões que, transportadas para uma tela, carregam de sentido as formas escolhidas pelo artista para as representar (belo, carácter, maneira de ser). Estes e outros modos de pensamento, com mais ou menos sabedoria, dotam qualquer obra de arte, de valores. Sejam científicos, formais, espirituais e até fantásticos, todos aguardam ser descobertos. O que precisamos é interpretação capaz de abrir os olhos e os ouvidos às mensagens transmitidas pela forma... informa Arnheim.

O efeito da obra de arte prolonga-se, não se limita ao momento da contemplação, deixa rasto, invade as horas prosaicas do quotidiano.

Não faltará ainda ao Homem, incluir a arte nos seus lazeres?

Do puzzle das preocupações ambientais, ressalta uma peça cuja antiguidade a torna curiosa .O Critias de Platão (428/347 a .C.), contém aquilo a que hoje chamamos, análise da paisagem. Este filósofo, imagina o que terá sido a Ática antes da história. Pelo porte de certos vigamentos antigos, conclui que, naquele espaço, terão existido grandes árvores .Ele fala também, da abundância de fontes nos lugares escolhidos para a construção de santuários. A estes factos, opõe a situação da sua época. Lamenta Platão: o que a terra tem de gordo e de mole escorreu de cima dos seus ossos nada mais resta que o seu corpo descarnado.

Mais perto de nós, a romancista sueca Selma Lagerlöf (prémio Nobel em 1909), no livro A viagem maravilhosa de Nils Holgerson, também revela as suas inquietações. Quando Nils, transformado em duende, se prepara para retomar a forma humana e deixar o bando de gansos selvagens que acompanhou à Lapónia, Akka, a velha gansa dirige-lhe as seguintes palavras:



Se aprendeste verdadeiramente algo de bom entre nós , terás abandonado a ideia de que os homens devem estar sozinhos na terra . Pensa em como é grande o país que tendes ! Será que não podeis deixar-nos alguns rochedos nus sobre a costa, alguns lagos e pântanos não navegáveis...algumas florestas afastadas onde nós outros, pobres animais, possamos viver tranquilos.

As preocupações com o ambiente terão milénios, mas é hoje, que a situação atinge níveis mais assustadores .O planeta corre perigo e o problema somos nós. Se é no cérebro do Homem que as crises nascem, só do cérebro do Homem poderá partir o remédio para as debelar.

O herói do filme O Clube dos Poetas Mortos de Peter Weis, é um professor de literatura. Ele entra na aula e convida os alunos, que estão alinhados atrás das carteiras, a subir para essas mesmas carteiras. Com que objectivo lança pedido tão estranho? Ele quer que os alunos olhem o mundo de lá. Pede-lhes que aprendam a mudar de lugar, a tomar altura, pois só assim é possível ver novos caminhos. Pergunta-lhes ainda: de quantas maneiras é possível caminhar num pátio?

Mudar de lugar, tomar altura pede-se também ao Homem.

De quantas maneiras é possível caminhar na vida?

domingo, 31 de janeiro de 2010

Quando o Cabo da Roca foi o Centro do Universo






É do mar de Sintra que melhor se percebe
A vastidão impressionante, soberba no
Seu turbilhão de formas e de cores, desse
Paraíso de bosques, silêncio e brumas
.
VITOR SERRÃO


Mais cedo ou mais tarde, antes que o Sol caia no horizonte, um FALCÃO vai aparecer. Com o mar em frente o pensamento repousa na serena espera. Não há preocupações ambientais, não há teologias, há um presente sem peso. Escapa-se ao TEMPO, frente ao mar de Sintra, que se estende ao Sol, animado de oscilações e cintilações. Quem exala uma alma em quem? É a paisagem líquida que exala alma no observador ou é o observador que exala alma na paisagem líquida?

Numa qualquer manhã, sob um céu passivo, tudo possuía excesso de sentido. Não se queixa de uma existência monótona quem procura os surpreendentes espectáculos que a vida na TERRA proporciona. O olhar ia do mar à rocha quase a prumo - um desnível de cerca de 140 metros - e voltava ao mar para procurar na superfície líquida, o presumível lugar da misteriosa ilha de Londobris. Ptolomeu situa-a diante do Promontório Magno, o Cabo da Roca, e afirma que Lusitanos em fuga, desalojados dos Montes Hermínios, aí procuraram refúgio. Terá soçobrado Londobris durante violento sismo ou só existiu na fantasia do astrónomo? Entretanto um bando de irrequietas gaivotas animava o espaço aéreo. Irene Lisboa tem a sensação de que o canto das aves dilata o espaço, talvez. Sobrevoavam e davam movimento ao lugar mais ocidental da Europa (9º 30´ long. W).


A luz caindo do alto, a brisa que chegava com odor a mar e os gritos das gaivotas activavam a memória de recente espectáculo e, também, a memória de antigas leituras que têm por cenário esta orla costeira. A bela arméria, que ninguém planta, espécie endémica do Cabo da Roca, que tocada pelo Sol rutilava, tinha ficado para trás, mas a súbita e impressionante aparição do vasto espaço por onde ela se espalhava, perdurava. A memória de antigas leituras que poeticamente narram sugestivas lendas activava a fantasia, e povoava o lugar de estranhos seres: sereias cantando melodiosamente, os correspondentes masculinos, metade homem metade peixe nadando preguiçosamente ou descansando sobre as rochas e, por aqui e por ali, os tritões que Damião de Góis fantasiou.

Da foz da Ribeira do Falcão, no termo Norte do corpo de Sintra, a costa, desdobra-se em falésias que crescem à medida que se aproximam do focinho da Roca. As vagas batidas pelo vento tropeçam nas arribas e da erosão, resultam grandes e vistosas rochas que desagregadas constroem recantos labirínticos. A estabilidade arquitectónica de certos espaços é periclitante. Recessos onde um FALCÃO possa nidificar e criar os filhotes, sobejam.

Quando o pensamento divagava sobre o privilégio dos falcões de Frederico II que eram tratados por poetas, e sobre a Beleza que começa por ser uma experiência íntima, um olhar distraído varreu o céu e descobriu lá bem no alto, um ponto negro. Seria o aguardado FALCÃO?


Era um FALCÃO, já evoluía pelo espaço, já não era apenas uma ponto a grande altura. Que ostentação, sentia-se em casa. Subitamente o voo alterou-se, tornou-se agoirento, perseverante, centrado num terreno próximo, coberto de vegetação onde coelhos e perdizes habitam. O FALCÃO não precisou de Mestre para, exprimir o invisível conteúdo dos seus propósitos. Caiu do alto como uma seta sobre certa perdiz mas a agilidade desta foi o seu fracasso. Parado a um palmo do chão voltou a subir e, pouco tempo passado, outra investida se seguiu e desta vez com êxito, certamente. Ele mantinha-se em terra, não era visto mas adivinhava-se a cena. Quando voltou a sobrevoar aquele mar de Sintra era um FALCÃO triunfante.

O espaço onde a arméria vicejava pedia nova visita. Crescem sozinhas e sem cuidados. A Beleza do conjunto fazia esquecer que cada flor é a manifestação externa, das forças interiores da planta a que pertence e a interferência das forças do ambiente: exposição ao vento, posição dominante do Sol, expansão do grupo. Rudolf Arnheim declara num misto de graça e de conhecimento que o Homem sem corar, contempla o órgão sexual da planta, desavergonhadamente exibido e impudicamente colorido, e tão longe vai na sua má interpretação que se regozija em ver na flor pureza do que não tem função definida.

Naquele dia um triunfante FALCÃO e um conjunto de belas e delicadas armérias fizeram do Cabo da Roca o centro do Universo.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Jesus de Nazaré provavelmente Poeta (IV)


Antes do Princípio

Para o adolescente tudo é monotonia, enfado, castigo. Também depressa tudo passa. Um repto, uma ideia ousada, uma lem-brança, uma colher cheia de alimento, um passeio pelo campo varrem melancolias.

Vive-se mais um sábado na cândida aldeia de Nazaré. O Sol é brando e a brisa pede licença para passar. Está à porta de casa. Os olhos não encontram onde poisar, vão do pátio ao morro da frente, da tira da sandália à nuvem que muda de forma. Sabe-se lá o que passa pela cabeça do teenager Jesus, à porta da casa, num tranquilo dia de sábado.

Poderá sentir descanso com o futuro a chamar por Ele?

Entretanto passa mais um movimento de rotação da Terra e outro e outro. Num dos habituais passeios pela colina, encontra um grande rebanho mas não vê o pastor. Os olhos percorrem o espaço envolvente. Que se passará? Senta-se e decide contar as ovelhas que pastam, são 99.

O tempo passa e o pastor aparece com uma ovelha sobre os ombros. Estava perdida e encontrou-a, abandonara 99, para ir buscar a que se perdera. Retém o episódio, talvez um dia mais tarde o conte a alguém.

Que pensará Ele da história de Sansão, o que feriu mil homens com a queixada de um jumento?

Que pensará Ele de Jonas, o que esteve três dias e três noites dentro do ventre da baleia nas profundezas oceânicas, por não querer ir pregar a Ninive?

Que pensará Ele da prostituta Raabe, da queda dos muros de Jericó, do massacre que se seguiu?

Prefere pensar na criança que foi, porque em todo o começo há um encanto e… encontra-a:
Mima o gato e mima o cão, sai a correr pela porta da rua e só volta quando, já cansado das brincadeiras com os outros miúdos, sente no ar o cheiro do pão ázimo que coze no forno.


P.S. A Proclamação do Acto Poético em Oito Pontos de H. C. Artmmann declara no primeiro ponto: Há um princípio intocável, que diz que se pode ser poeta sem jamais ter escrito ou pronunciado uma palavra.